Esta 1ª volta do Campeonato Português tem, para mim, dos destaques: o Porto e o Setúbal, que dificilmente poderiam ter feito melhor, tendo em conta os seus objectivos. O Porto luta, naturalmente, para ser campeão e leva com 12 vitórias, 2 empates e 1 derrota, contabilizando 24 golos marcados e apenas 5 sofridos; o Setúbal luta pela manutenção (vamos ver se não lutará por algo mais) e no seu registo soma 5 vitórias, 9 empates e 1 derrota, contabilizando 22 golos marcados e 15 golos sofridos.
A estatística ajuda-nos a comparar equipas, já que os números não mentem.
O Setúbal é o rei dos empates (a par do Leixões), totalizando 9. Conta apenas com uma derrota, à semelhança do líder incontestado Futebol Clube do Porto. Para além disso, apenas tem menos 2 golos marcados que os azuis e brancos e menos 4 que a equipa mais goleadora - o Benfica.
Interessante (e chocante) é comparar os números do Vitória de Setúbal com os números da equipa de Paulo Bento. Ambos têm o mesmo número de golos marcados (22), enquanto que a nível de golos sofridos o Sporting contabilizou (apenas!) um golo a menos nas suas redes que o Setúbal (14 para os leões, 15 para os sadinos).
Para finalizar a análise estatística mandam as regras comparar os números do 1º classificado (Porto) com os números do 2º (Benfica). Em vitórias 12X8; em empates 2X5; em derrotas 1X2. Em golos marcados 22X24; em golos sofridos 5X9. Ora, se a matemática não mente, pode ser capaz de esconder certos pormenores importantes para a análise de um jogo complicado como é futebol. Se nos números o Benfica não está assim tanto atrás do FC Porto, no plano prático, ou seja, na relva, situa-se bastantes furos abaixo.
PORTO - Jesualdo Ferreira (e há que dar-lhe o mérito) soube montar uma equipa digna desse nome. Apoiado na estabilidade que já vinha da época passada, soube aos poucos colmatar a perda de Pepe (Anderson não foi propriamente uma perda, já que não era um titular absoluto devido à lesão que o afastou metade da época no ano passado) e moldar uma equipa a partir de trás, da segurança defensiva. Se Stepanov e João Paulo não convenceram, Pedro Emanuel, completamente recuperado da lesão, tem feito uma grande dupla com Bruno Alves, central este que se está a tornar no grande bastião azul e branco. O resultado desta dupla Emanuel-Alves está à vista: apenas 5 golos sofridos.
Claro está que uma defesa não se faz só com centrais, mas também com um bom guarda-redes (que neste caso o Porto tem), com bons laterais e com um bom trinco e médios de cobertura.
Nas laterais o Porto tem aquele que, dentro de poucos anos, será um dos melhores - senão o melhor - lateral direito do Mundo. Seu nome: José Bosingwa. Dono de uma velocidade fantástica, capaz de recuperar no terreno de forma rapidíssima, forte no choque, no um para um, intransponível na defesa e capaz de, durante os 90m, se encarregar da ala direita, ficando ela por sua conta. Do outro lado reside Fucile (que tem alternado com Cech), lateral que tem evoluído bastante, sendo muito voluntarioso e capaz de defender e atacar com a mesma intensidade, tendo bastante cultura táctica.
No meio-campo, lugar onde se ganham jogos e onde está a essência do 4x3x3 do Prof. Jesualdo, Assunção, Meireles e Lucho jogam quase de olhos fechados, participando todos nas acções defensivas e ofensivas, com particular destaque para El Comandante que surge esta época muito melhor fisicamente e a distribuir jogo como se fosse um verdadeiro número 10.
Nas linhas avançadas Quaresma, Tarik e Lisandro compõem um trio que aterroriza defesas adversárias no nosso país. Quaresma e as suas assistências e magias; Tarik e as suas fintas e veia goleadora; e Lisandro que encarna um verdadeiro número 9, predador no seu habitat natural (a grande área) e que só treinadores demasiado presos a clichés foram incapazes de perceber que não se deve retirar um predador do seu habitat, mesmo que o desloquem para bastante perto (como foi o caso, já que o deslocavam para uma ala).
O Porto é, assim, uma equipa em alta, não necessitando dos novos reforços até esta fase da época (Mariano, Stepanov, Edgar, Leandro Lima, Bolatti e Kazmierczak têm-se mostrado muitos furos abaixo do 11 inicial e dificilmente mudarão o seu estatuto na decorrente época - veremos o que acontecerá a Hélder Barbosa, que regressa da Académica, jogador no qual deposito bastantes mais esperanças do que em Mariano).
BENFICA - O Benfica, apesar das sucessivas polémicas com José Veiga, Luisão VS Katsouranis, está em 2º lugar (muito por culpa de Quim) e parece ser a única equipa capaz de assustar o Dragão.
Contudo, para isso realmente acontecer, muita coisa teria que mudar e não me parece que Camacho consiga fazer isso nesta 2ª volta. Os encarnados ainda não encontraram um sistema táctica no qual apostem cegamente (culpa de Camacho) e ora alternam um 4-2-3-1 com um 4-4-2, que parece ser o melhor sistema para Cardozo e Nuno Gomes jogarem. O Benfica dá a ideia de ser uma equipa excessivamente dependente dos rasgos individuais de Rodriguez e de Rui Costa, sem dúvida os melhores jogadores do plantel nesta 1ª metade do campeonato.
No que toca aos reforços, Cardozo tem desiludido, mas mostra potencial para mais. Dí Maria e Adu, apesar da qualidade, necessitam de outro tipo de acompanhamento, o que é díficil de se conseguir na Luz, onde não se tem tempo por causa dos resultados (e também não será menos verdade o inverso).
O Benfica debate-se ainda com problemas bastante graves: a má forma de Petit, Katsouranis e Luisão; a indecisão entre Nélson e Luís Filipe no lado direito da defesa; a esquerda estar entregue a um jogador a prazo (Léo sairá no final da época); a dificuldade que Camacho tem tido para encontrar o parceiro ideal de Luisão no eixo da defesa. Ora tem sido Katsouranis, ora David Luiz, ora Edcarlos. Até há quem diga que das 3 apostas mais firmes (Luisão, Katso e David Luiz) quem deverá sair é o capitão.
Em minha opinião, julgo que o Benfica será incapaz de destronar o Porto, mesmo que saiba que a fase irregular dos azuis e brancos chegará mais cedo ou mais tarde. Mas regularidade é coisa que não me parece que este Benfica vá atingir, pois os golos "milagrosos" de Adu e Mantorras não aparecem todos os dias e uma equipa que se candidata ao título necessita de fazer e mostrar muito mais do que aquilo que até aqui se viu.
SPORTING - Em Alvalade algo de estranho se passou esta época. Depois de uma temporada prometedora alicerçada principalmente no famoso 4-4-2 losango de Paulo Bento (Veloso, Moutinho, Romagnoli, Nani no meio-campo), o Sporting é hoje uma equipa à deriva. É mais fácil enumerar as posições onde não há problemas do que aquelas que apresentam deficiências.
Assim sendo, Abel e Polga parecem-me ser os melhores sportinguistas, a par do reforço Simon Vukcevic que jornada após jornada se vem mostrando como elemento mais inconformado do apático plantel leonino.
Falemos então dos problemas do reino do leão. Começamos logo na baliza, onde a estratégia do treinador não se percebe. Já apostou nos 3 guarda-redes e nenhum deles parece estar bem psicologicamente, capítulo essencial num guarda-redes.
No eixo da defesa Tonel e Gladstone parecem estar numa dimensão abaixo da de Polga, apesar de não ser por eles que o Sporting sofre os golos que sofre.
Na lateral esquerda, antes de analisarmos os defeitos de Ronny e Had, teremos que pensar em Caneira, jogador essencial da anterior formação leonina. E nem o brasileiro nem o eslovaco o fizeram esquecer. Mais uma vez aqui não se percebe qual é a aposta do treinador, já que até Miguel Veloso chegou a jogar nessa posição.
No meio-campo, o losango tem de ser questionado. Se não funciona porque é que Paulo Bento insiste? Todos sabemos que montar um losango é bastante díficil. Tudo bem que ele já funcionou, mas agora não está a funcionar e o Sporting não é um clube para experiências. Só ficava bem a Paulo Bento reconhecer o erro e optar por outra solução táctica. O losango não pode funcionar com Veloso, Moutinho e Romagnoli neste estado de forma. Veloso ora joga a trinco, ora a médio interior, ora a defesa esquerdo, o que me faz temer pelo desenvolvimento futebolístico deste jogador: Moutinho é uma sombra do que foi, perdido no terreno, sem posição que se identifique; Romagnoli ainda ninguém percebeu se é 10, se é medio interior, se se cola a uma das alas... o que se nota é a ausência de Nani! E depois temos Izmailov que, quanto a mim, foi uma troca por troca: vai um Carlos Martins grande jogador mas super irregular; vem um Izamilov grande jogador mas super irregular. Os ganhos foram 0, portanto.
Na frente, Liedson está bastante abaixo daquilo que já fez em épocas anteriores, muito por culpa de não ter um parceiro ao seu nível. Poderia ser Derlei, mas está lesionado. Djaló e Purovic já mostraram serem soluções para clubes de ambições inferiores, não se coadunando com aquilo que o Sporting pretende.
Resumindo, baralhando e concluindo, temos um Sporting numa encruzilhada, cuja única solução que vislumbro é a saída do treinador no final da época. Não me parecem ser capazes de atingir aquilo a que se propõem e talvez nem a Taça da Liga salve a época, pois o Setúbal acabou de dar uma lição de futebol aos leões.
CLUBES QUE ESTÃO A LUTAR PELA UEFA - na luta pela Taça UEFA estão, quanto a mim, 5 equipas: Guimarães, Setúbal, Marítimo, Braga e Belenenses.
De entre todas a que possui melhor plantel é, sem dúvida, o Sporting de Braga, com jogadores que poderiam jogar a titulares num grande, como é o caso do austríaco Roland Linz. Para além disso dispõe de algo muito importante e quem nem sempre se encontra nestas equipas: banco! Um banco que tem César Peixoto, João Tomás, Castanheira, João Vieira Pinto, Zé Manel, Vandinho e Lenny é um banco de luxo em Portugal. Quem dera ao FC Porto e ao Sporting, por exemplo, ter um banco destes. E mesmo ao Benfica, onde no banco só vemos Di Maria e Adu como verdadeiros substitutos do 11 inicial.
Paulo Santos, João Pereira, Frechaut, Miguelito (reforço), Carlos Fernandes, Brum, Jorginho, Madrid, Wender e Linz são jogadores de nomeada e que podem fazer a diferença em qualquer jogo.
Depois temos Belenenses, Marítimo e Guimarães como equipas bastante iguais em termos de plantel e bastante equilibradas.
O Belenenses de Jesus baseia o seu futebol ofensivo num 4-4-2 em Hugo Leal, Zé Pedro, Silas, Roncatto e Weldon, a que se junta agora o poder de fogo de Meyong. Hugo Leal é o responsável pelas transições ofensivas; Zé Pedro um 10 à moda antiga, que pauta bem o jogo e sabe rematar de meia distância; Silas, em forma, é um quebra cabeças para as defesas adversárias; e na frente dois vagabundos que fazem da sua aceelração e velocidade as suas grandes armas: Weldon e Roncatto, dois brasileiros bons de bola.
Atrás temos a consistência defensiva que equilibra o conjunto, com Ruben Amorim e Gomez como tampões e Rolando como grande esteio defensivo, juntamente com Alvim. E também tem banco: Cândido Costa, Mano, Amaral, Areias, entre outros.
O Marítimo tem feito um bom campeonato e promete manter-se estável. Briguel como pilar defensivo; Wénio, Marcinho, Kanu e Makukula como estrelas da equipa. Makukula parece ser, assim, um ponta-de-lança a ter em contra, juntamente com Kanu e Bruno Fogaça. No banco surgem Fábio Felício, Sidney, Olberdam e Mossoró.
Relativamente ao Guimarães de Cajuda... quem diria que este Regresso do Rei tão guerreiro?! Cajuda montou uma equipa que joga bom futebol, rápida, forte defensivamente e alicerçada num 4-3-3 que privilegia a posse de bola. Fajardo tem sido, a par de Alan e Géromel a grande figura da equipa, que conta ainda com Mrdakovic, Flávio Meireles, Desmarets, João Alves e Ghillas como valores seguros do futebol vimaranense.
No banco aparecem Carlitos, Targino e Moreno.
E não nos podemos esquecer do excelente guardião Nilsson.
Contudo, a grande sensação são os sadinos de Carlos Carvalhal! E reconheço que é uma equipa que gosto de ver jogar, com atacantes rápidos, que não têm medo de atacar, daqueles que cravam os olhos nas balizas adversárias.
Na baliza um senhor chamado Eduardo, muito seguro entre os postes e com bastante personalidade (selecção?!); na defesa Auri, Janício e Adalto conferem muita segurança e coesão; no milo Sandro, Ricardo Chaves e Bruno Ribeiro foram um trio bastante coeso e capaz de trocar a bola, sendo também capaz de recuperá-la com o mesmo espírito; na frente, surpreendentemente, abundam as soluções: o portista Bruno Gama, o possante e tecnicista Edinho (bom de bola), o endiabrado e "fazedor" de assistências Cláudio Pittbull, bem como o finalizador Matheus.
Ou seja, temos um Setúbal bastante equilibrado e coeso, com uma atitude muito positiva no jogo.
A questão que se coloca é a seguinte: sem ter o banco das outras equipas até aqui enumeradas, será o Setúbal capaz de manter o nível exibicional e de resultados até aqui apresentado? É uma incógnita quem ninguém certamente se atreverá a arriscar uma resposta. Mas que dá gosto ver este Setúbal, lá isso dá!
A lutar para não descer, quanto a mim, estão todas as outras (Nacional, Boavista, Académica, Leixões, Leiria, Naval, Estrela da Amadora e Paços de Ferreira), embora sabendo que um lugar da descida já está preenchido pela União de Leiria [o que será traumático de ver, pois isso significará o fim da União, pois duvido que a CM de Leiria continue a investir e a aguentar um clube sem modo de progredir como até aqui tem feito e porque será penoso ver mais um estádio de 30 mil lugares na Liga Vitalis: e passarão a ser 3 (Aveiro, Algarve e Leiria), possivelmente 4 se as minhas suspeitas de descida da Académica se confirmarem].
Prevê-se uma luta bastante renhida pela sobrevivência, embora eu aposte na Académica ou Paços para a descida, já que o Leiria parece definitvamente condenado. Estas afiguram-se-me como as equipas mais fracas, mas o futebol é cheio de surpresas e tudo pode acontecer.
Mas era realmente uma pena ver tantos estádios de 30 mil lugares na Liga Vitalis, mas a verdade é que é o fruto da nossa arrogância de quereremos construir 10 estádios, fazendo de nós o país do Mundo com mais estádios de luxo por m2.
Em suma, temos um FC Porto com tudo para se sagrar tri-Campeão, embora para isso tenha que estar concentrado e nunca apostar demasiado na Liga dos Campeões, pois isso pode ser fatal (tal como o foi ao Sporting de Peseiro que ia ganhar tudo e não ganhou nada por fazer uma incorrecta gestão do Campeonato e da Taça UEFA), já que Benfica e Sporting, apesar do enunciei acima, têm bons jogadores e, motivados pela massa adepta, podem galvanizar-se se ganharm 3 ou 4 jogos seguidos.
A luta pela UEFA vai ser bastante animada e vamos a ver se o Setúbal não surpreenderá pela positiva.
Na luta pela manutenção, uma vez mais, vamos ter jogos muito intensos e decisivos, embora ache que um lugar de descida já está preenchido pela União de Leiria.
Que haja grandes jogos de futebol!
RAM